Abaixo este patrulhamento ideológico atrasado

https://i0.wp.com/blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/files/2014/05/AE.jpgAviso: este artigo não contém nenhuma informação útil à respeito do processo de imigração para o Canadá. É um desabafo pessoal sobre o clima político envenenado no Brasil do ponto de vista de quem assiste isto de fora.

Após quase dois anos longe do Brasil, eu e minha esposa, nós nos surpreendemos com a degradação recente do clima político no Brasil. Mídia, blogs, redes sociais: todo mundo parece caminhar para uma polarização entre extremos aonde não existe mais espaço para qualquer opinião que ofereça algo menos do que a sujeição absoluta.

De um lado, a turma do “bandido bom é bandido morto”. Defendendo coisas como execuções sumárias, volta da ditadura militar, fim de qualquer programa social e outras medidas de arrepiar os cabelos; eles invadiram as redes sociais caluniando políticos de esquerda (me recuso a chamá-los de progressistas, porque esse rótulo implica que aberrações como Coréia do Norte e Cuba indicam algum tipo de progresso) e fabricando memes com informações absolutamente falsas.

Do outro, a turma do “bandido é uma vítima da sociedade”. Militando na Internet através de blogs e seções de comentários (não apenas no Brasil, mas até mesmo em sites de publicações internacionais, como a The Economist), eles repetem à exaustão – no melhor estilo Goebbels – que o Brasil nunca esteve tão maravilhoso e que qualquer crítica ao  Brasil, ao governo ou ao PT (não importa, para eles, os três são indivisíveis) é prova de monstruosa insensibilidade social e reação à perda de privilégios imorais.

No meio destes extremos, os fatos – dado que não suportavam nenhum dos dois discursos – foram violentados, mortos, esquartejados e enterrados como indigentes.

Infelizmente, parece ser necessário explicar à esses fundamentalistas políticos algumas coisas básicas sobre democracia e liberdade de expressão. Democracia não significa exercício da vontade da maioria, significa exercício vontade de todos, ponderado pela representação de cada grupo dentro da população. Infelizmente numa democracia as pessoas são livres para fazer escolhas, inclusive escolhas estúpidas. E esperar que pessoas que dependem de programas do governo votem contra esses programas é tão razoável quanto esperar que judeus, negros e nordestinos votem em partidos neonazistas (e a perspectiva de impedi-los de votar é tão absurda quanto remover os direitos políticos de determinadas minorias para permitir um partido neonazista de se eleger). Tudo o que eu posso dizer é todos que acharam que podiam decidir em nome do bem da maioria, acabaram produzindo tragédias.

Da mesma forma, liberdade de expressão não significa poder dizer apenas a Verdade. Liberdade de expressão significa poder expressar livremente sua opinião; por mais absurda, contraditória ou repulsiva que seja. Coisas como astrologia, criacionismo, discriminação, homeopatia, homofobia ou supremacismo não são conceitos que sobrevivem à uma análise minimamente isenta, e ainda assim, a liberdade de expressão garante à todas elas tem o direito de participarem do mercado de ideias. Para deixar bem claro: alguém expressar sua homofobia não dá o direito à ninguém de agredir um casal de gays, da mesma forma que acreditar em homeopatia não justifica alguém explodir uma farmácia.

Para finalizar este artigo, alguns assuntos polêmicos recentes e um pouco de lucidez:

“Abaixo este Brasil atrasado”, da Ellus: parece surreal ter que dizer isso, mas vamos lá: você não é obrigado a usar uma camiseta estampando uma frase com a qual você não concorda. Discorda da Ellus? Não compre nada deles, é o seu direito. Uma das coisas que mais me irritam com os patrulheiros ideológicos de plantão é esse desejo irrefreado de controlar a liberdade de expressão alheia.

Rachel Sheherazade e o linchamento: em primeiro lugar, a moça nunca disse que concordava com o justiçamento, apenas que entendia o que levou a população a fazer o que fez. Eu sou absolutamente contra qualquer tipo de justiça que não seja a do Estado, porém, o que você faz quando o Estado não exerce o seu papel seja por incompetência ou má vontade mesmo? Quando o mesmo indivíduo comete dezenas de crimes e não passa mais do que algumas noites na cadeia? O justiçamento é sintoma de uma doença social crônica: a total descrença no Estado como entidade capaz de distribuir justiça. Não seriam os justiceiros tão vítimas quanto?

Regulamentação da imprensa: sim, o Brasil se beneficiaria enormemente de uma lei regulamentando melhor o direito de resposta. Porém, o que o governo vende como  regulamentação da imprensa passa longe disso: essa regulamentação (“democratização”) implica no uso da verba publicitária do governo e empresas estatais para financiar a “mídia alternativa”. Quem já reparou na publicidade exposta em blogs como o do Luis Nassif e Paulo Henrique Amorin sabe como isso funciona: a verba vai para atores menores selecionados pela “pluralidade” de não criticar o governo e desqualificar qualquer um que o faça (pouco importando os fatos). A verdadeira democracia da mídia é aquela que todos os veículos são expostos em igualdade de condições e são escolhidos pelo leitor. Entre os semanários, circulam no Brasil Carta Capital, Época, Isto É e Veja. Suas diferentes tiragens não são indicação de uma conspiração antigovernista, são indicação da capacidade de entregar algo que as pessoas querem. Essa liberdade é insuportável para a patrulha ideológica: aparentemente o cidadão ordinário não é esclarecido o suficiente para sequer escolher o que ler.

Copa do Mundo: gostemos ou não, a maioria dos brasileiros votaram pela realização da Copa do Mundo no Brasil quando reelegeram Lula e elegeram Dilma quatro anos mais tarde. É um fato da vida democrática: algumas vezes você está do lado da minoria. Obviamente, isso não implica que protestar contra a Copa seja terrorismo; porém, agressões, saques e atos de vandalismo caracterizam criminosos, não manifestantes. Simples assim.

Bolsa Família: as pessoas tendem a imaginar que o programa Bolsa-Família é uma idiossincrasia do Brasil; contudo, programas semelhantes existem por toda a Europa Ocidental e América do Norte. Na verdade, ao contrário do que muita gente imagina, as duas maiores rubricas do orçamento dos Estados Unidos são saúde (24,7%) e o assistência social (23,2%). Defesa fica em terceiro lugar, com 17,7%. Aqui no Quebec, a aide socialle, ocupa o mesmo nicho que o Bolsa Família no Brasil e recebe algumas críticas semelhantes. De qualquer forma, ser contra o programa não faz de ninguém um monstro, assim como ser a favor não faz ninguém um apologista da vagabundagem.

Emigração = falta de patriotismo: para finalizar, uma que me atinge pessoalmente. Tenho ouvido as coisas mais absurdas: a comida no exterior dá diarreia crônica em brasileiros, o Canadá é insuportável porque as pessoas não podem dirigir embriagadas ou beber nos parques e quem sai do país está destinado a lavar pratos para gringo. Bem, eu estou aqui há menos de dois anos e posso dizer: como muito bem, a proibição de dirigir bêbado não me incomoda nem um pouco e, ainda que eu não lave pratos para viver, não me importaria de fazê-lo: neste país, a profissão que exerço não me faz melhor ou pior e mesmo quem lava pratos em um restaurante tem uma qualidade de vida muito melhor do que muito gerente e “doutor” no Brasil. Dizem também que quem emigra (“abandona”, “foge”) do Brasil está traindo pátria (talvez porque quem vive no exterior percebe que no final das contas, o Brasil não é um pedaço maravilhoso do paraíso na Terra, mas um lugar bem medíocre). Essa afirmação é tão absurda quanto dizer que uma mulher que deixa seu marido violento esta traindo-o. Honestamente, tenho um profundo respeito pela coragem de quem podia emigrar mas optou por continuar; torço realmente para que as coisam deem certo para eles, até porque minha família e meus amigos estão entre eles.

Um abraço a todos e até a próxima.

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2 respostas em “Abaixo este patrulhamento ideológico atrasado

    • Oi Carol,

      Infelizmente as coisas só pioraram desde que eu escrevi este artigo; com as eleições parece que o país vai rachar em dois. Eu vejo as pessoas reclamando de como a presidente é cobrada nas entrevistas e debates – aparentemente é falta de respeito fazer perguntas difíceis – essas pessoas deveriam ver um debate daqui ou assistir o Hard Talk da BBC.

      Um abraço,
      Alexandre

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