Política de Imigração Canadense: uma discussão honesta

A maior qualidade e o maior defeito do blog enquanto mídia para exprimir opiniões é que os autores tem um grau de liberdade muito maior do que o permitido pelos jornais e revistas. Hoje, eu vou aproveitar essa liberdade para emitir falar sobre um tema que surgiu há cerca de um mês nas comunidades de emigrantes: a mudança da política de emigração canadense.

Entretanto, antes de começar, eu gostaria de deixar claro que o artigo é apenas o começo: qualquer um que discorde ou que tenha algo a acrescentar é livre para comentar e assim chegar a uma avaliação mais precisa sobre o impacto desta nova política.


Recebendo cerca de 250 mil imigrantes por ano, o Canadá é o país desenvolvido que mais abriga estrangeiros em todo mundo. E o novo plano de emigração tenta ajustar a imigração às necessidades pós-crise econômica e reduzir a fila de espera dos imigrantes do processo federal (para saber mais, leia isso e isso). Entretanto, o novo plano de emigração é confuso mesmo para os canadenses, o que levou o ministro Jason Kenney a explicar melhor as mudanças.

Ministro da Cidadania, Imigração e Multiculturalismo Jason Kenney

As mudanças foram suficientes para que as comunidades imigrantes imaginassem que as mudanças, na verdade, faziam parte de uma estratégia maior para restringir ou impedir a entrada de emigrantes no Canadá. Eu acompanhei as notícias e não consegui identificar nenhum ponto nesse sentido, pelo contrário, eu considero todas as medidas como provas de boa vontade e disposição de tornar o processo mais simples e transparente.

Vamos analisar cada uma das medidas anunciadas, e tentar interpretar o significado de cada uma:

  • Limitação para imigrantes qualificados no processo federal: apesar de esperar aceitar 250 mil imigrantes por ano nos próximos anos, apenas imigrantes cujas profissões estejam em uma lista de 29 profissões em demanda serão aceitos (é claro que isso se aplica ao requerente principal, não necessariamente ao conjuge). Essa limitação está valendo há cerca de dois anos, quando diversas demandas de imigrações foram recusadas por não estarem dentro desta lista. Além disso, apenas 1000 demandas por profissão por ano serão analisadas, num total de 20 mil demandas por ano: o restante dos imigrantes virá de outras categorias (investidores, refugiados, reunião familiar, etc.), será alocado para os processos provinciais, como o processo do Québec (que não é afetado pela mudança) ou virá da lista de espera de demandas dos anos anteriores. Apesar da limitação ser frustrante, esperar até 6 anos para que a demanda de imigração seja aprovada ou recusada é algo que prejudica tanto o Canadá, que precisa destes imigrantes quanto para os candidatos, que vivem vários anos sem saber se e quando imigrarão. Além disso, todas as demandas de pessoas que já tem uma oferta de trabalho em solo canadense são automaticamente aceitas.
  • Obrigação do teste de proficiência em francês e/ou inglês: para evitar fraudes que permitam que pessoas sem proficiência suficiente em francês ou inglês emigrem, a habilidade de falar um dos idiomas do Canadá não será mais avaliada através de uma carta escrita e sim através de testes. Para quem está no processo do Quebec, nenhuma novidade até aqui: a avaliação provincial é feita através da entrevista ou, em algum casos, através do TCF-Québec. Uma vez que o objetivo de aceitar imigrantes qualificados é alocá-los no mercado de trabalho com empregos especializados, é mais do que razoável esperar que esse imigrante tenha proficiência em um dos idiomas oficiais do país. Aliás, o meu conselho para todos os imigrantes é que dominem os dois idiomas oficiais do Canadá: o fato de que o país é bilíngüe significa justamente que você precisa falar os dois idiomas para que você possa se comunicar com todos, não que todos poderão falar com você em inglês ou em francês.
  • Alinhamento e padronização dos processos provinciais: algumas pessoas entenderam essa parte do anúncio como um ataque direto ao processo provincial do Quebec. Eu discordo dessa posição: o Quebec goza de um grau de autonomia muito alto dentro da federação canadense (o Quebec quase se tornou independente do Canadá em 1995 e em 2006 foi elevada ao status de nação dentro do estado canadense) para permitir interferências indesejadas na sua política de emigração, fundamental para a manutenção de sua condição francófona. O mais provável nesse anúncio é o alinhamento dos processos burocráticos para acelerar o tratamento das demandas: qual seria o sentido de ter processos provinciais que fossem regulados ou limitados pelos parâmetros do processo federal?

Sobre os demais pontos, eu não estou em condições de julgar as mudanças para imigrantes investidores (CAN$ 1,6 milhões é dinheiro demais para mim), mas o fato de que a categoria reunião familiar não vai sofrer mudanças mostra que existe sim boa-vontade de acolher e receber bem os imigrantes e suas famílias.

E vocês, o que acham?

Observação 1: 6000 acessos, nada mal para um blog que eu não atualizava há dois meses. Espero que o próximo artigo não seja publicado no final de setembro.

Observação 2: eu preciso atualizar o meu timeline e avisar aos amigos, mas eu viajo dia 15/09 e chego em Montreal dia 20/09 (vou passar 5 dias em Nova York).

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